Entre agosto e setembro de 2026, seis artistas participaram de uma residência online conduzida por Efe Godoy, em quatro encontros quinzenais dedicados à troca de experiências e ao desenvolvimento de pesquisas individuais. Transmutar, transfigurar, transparecer e transbordar foram os verbos que orientaram as discussões e que agora dão nome à exposição coletiva apresentada pelo Centro Cultural Veras.
O programa teve como ponto de partida a trajetória artística de Efe Godoy e os procedimentos desenvolvidos na série TRANS/parentes (2022), composta por grandes retratos de mulheres trans pertencentes à rede de afetos da artista, impressos sobre tecidos translúcidos. Ao longo dos encontros, os participantes aproximaram suas pesquisas das técnicas e suportes explorados por Efe, compartilhando experiências e elaborando trabalhos a partir de seus próprios interesses artísticos.
O resultado desses processos ocupa agora a Sala Mira, onde imagens produzidas por sublimação em tecido assumem a forma de bandeiras e estandartes. A escolha dessa linguagem remete ao gesto de hastear e tornar públicas ideias, valores, lutas e memórias afetivas. Os quatro verbos que conduziram a residência deram origem a imagens que sintetizam as pesquisas dos artistas, reunindo diferentes formas de representação e expressão.
As obras apresentam pesquisas relacionadas à autorrepresentação, aos arquivos biográficos e históricos e às experiências individuais e coletivas. Em lembrança da (2026), Nestor Varela reúne dois retratos apresentados em composições que remetem a registros de lembranças pessoais. Já em Não ideia (2026), Marta Neves combina desenhos e frases que utilizam o humor e a ironia para abordar questões relacionadas ao mercado da arte e às diferenças de tratamento entre homens e mulheres.
A relação entre imagem e palavra também aparece em Beije minhas inseguranças / amada em voz alta (2026), de Jules Harkov, que reúne desenho e texto em uma mesma composição. Em Paisagem Passagem #1 e Paisagem Passagem #2 (2026), Sara Não Tem Nome apresenta duas imagens em preto e branco, fotografadas por Sanzio Magno e Gabraz Sanna, respectivamente. A exposição inclui ainda trabalhos como Molhado (2026), de Juliano Bentes/Skyyssime, com fotografia de Ana Paula Gomes; Verdade Abissal (2026), de Gus Rocha; e Funeral para la idea de un hombre (2026), de Wini Bueno Lippi, além de obras de Joanna Leoni e Ryo Sylva.
Participaram da residência Jules Harkov, Juliano Bentes, Gus Rocha, Nestor Varela Junior, Ryo Sylva e Wini Bueno Lippi. A exposição também reúne trabalhos das artistas convidadas Joanna Leoni, Marta Neves e Sara Não Tem Nome, além de Efe Godoy, responsável pela coordenação do programa.
Joanna Leoni é artista visual, escritora, professora, pesquisadora e produtora cultural travesti, residente em Florianópolis. Mestra e doutoranda em Artes Visuais pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), na linha de Processos Artísticos Contemporâneos, integra o Aya — Laboratório de Estudos Pós-Coloniais e Decoloniais e o Grupo de Pesquisa Proposições Artísticas Contemporâneas e Seus Processos Experimentais. Sua produção investiga as relações entre memória, arquivo, linguagem, corpo e experiências travestis, utilizando procedimentos gráficos, fotografia e documentos pessoais e históricos. É uma das responsáveis pela construção do Faísca — Arquivo da Memória Trans de Santa Catarina, projeto dedicado à preservação e difusão das memórias das comunidades trans catarinenses, que reúne mais de mil itens. Também integra a Coletiva TRAMA e atua como tradutora no Projeto TravⒶ. Em 2026, lançou o livro trocar/tocar nossas línguas: trans/escrita, memória y registro, resultado de sua pesquisa de mestrado.
Nestor Varela é artista visual catarinense, fotógrafie e produtorie cultural, residente em Florianópolis. Graduade em Fotografia pela Univali, em 2020, é mestre e doutorande em Artes Visuais pela Udesc, onde desenvolve pesquisas com apoio de bolsas da Fapesc e da Capes, respectivamente. Integra o Grupo de Pesquisa Proposições Artísticas Contemporâneas e Seus Processos Experimentais. Sua produção investiga relações entre fotografia, memória, corpo e processos de construção das imagens. Participou das exposições coletivas Papel de parede, em Paris (2022) e Florianópolis (2024), Tentacular, em Criciúma (2024), e Convite ao ataque, em São Paulo (2025). Realizou as exposições É como se a câmera guardasse um segredo de imagens suspensas através dos anos, em Itajaí (2021) e Indaial (2023), e Gostaria de lembrar mais das coisas que gostaria de lembrar, apresentada em Itajaí (2025), Maringá e Pato Branco (2026). Também integrou equipes de produção do Salão Nacional de Artes Visuais de Itajaí e do projeto Portuário.
Wini Bueno Lippi é travesti, atriz, performer, produtora cultural, poeta e artista visual, residente em São Paulo. Estudante de Design Gráfico, desenvolve uma pesquisa que transita entre teatro, performance, poesia e colagem, abordando memória, dissidência de gênero e processos de criação. Cofundadora da Coletiva Verborragika, integrou o espetáculo Venganza: pega homem?, dirigido por Danna Lisboa, apresentado no 29º Festival Mix Brasil e na quinta edição do Mulheres em Cena. Em 2025, teve o projeto Cartas para quando não houver mais urgência, residência artística voltada para mulheres e pessoas trans vivendo com HIV, reconhecido pelo prêmio Melhor Projeto Cultural: Trilhas de Cultura. Possui formação livre pela Escola Livre de Teatro de Santo André, pela Universidade Antropófaga do Teatro Oficina Uzyna Uzona e pelo Centro de Aperfeiçoamento Teatral (CAT). Desde 2026, atua como assistente de arte no É Pedra Ateliê e participa da residência Corpo_Sonoro – UTUPÊ, do Núcleo Viver.
Gus Rocha é artista visual trans-cênica, bacharel em Artes Plásticas com habilitação em Pintura e Fotografia pela Escola Guignard, da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), em 2025, e técnica em Dança pelo Centro de Formação Artística e Tecnológica (CEFART), da Fundação Clóvis Salgado, em 2020. Sua prática investiga a metamorfose como condição compartilhada entre corpo, paisagem e matéria, observando processos de transformação e adaptação dos elementos naturais. A partir dessas relações, desenvolve trabalhos que abordam experiências dissidentes por meio de procedimentos autoficcionais, nos quais memórias, projeções e vivências pessoais participam da construção das imagens. Em 2025, participou da exposição coletiva Serras, ruínas e matas: pintura ao ar livre em Belo Horizonte, no Museu Mineiro, onde também atuou como assistente de curadoria.
Marta Neves é artista visual e escritora, com formação em Desenho e Cinema de Animação e mestrado em Artes Plásticas pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Sua produção transita entre fotografia, bordado, vídeo, faixas, texto e performance, utilizando a apropriação, o humor e a ironia para abordar situações cotidianas e questionar convenções sociais e do sistema artístico. Participou da III Bienal de Artes Visuais do Mercosul, em 2001, da Japan-Brazil Creative Art Session, no Kawasaki City Museum, no Japão, em 2008, e da 31ª Bienal de São Paulo, em 2014. Entre suas exposições recentes estão Museu Travesti da Neca e Outros Desenfados (2021), Nunca foi sorte (2022), Ah, eu amo as mulheres brasileiras! (2023–2024) e Nossa Senhora do Desejo (2025). Desde 2017, integra o coletivo Academia TransLiterária, participando de oficinas culturais, performances e produções literárias.
Sara Não Tem Nome é multiartista, mestre e bacharel em Artes Visuais pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Sua produção transita entre artes visuais, performance, música e cinema, articulando diferentes linguagens em pesquisas sobre deslocamento, memória, desejo, imaginação e escuta. Nos trabalhos recentes, investiga a voz como matéria artística, a escrita performativa e as relações entre imagem, som e presença. Participou de residências artísticas como a Bolsa Pampulha e o programa do Red Bull Station, onde gravou seu primeiro álbum, Ômega III (2015). Em 2019, apresentou sua primeira exposição individual, Situações, no Memorial Minas Gerais Vale, em Belo Horizonte. Em 2023, lançou o álbum A Situação.
Jules Harkov é artista visual paraibano que utiliza poesia, pintura e desenho para desenvolver narrativas e personagens. Formada em Meio Ambiente pelo Instituto Federal da Paraíba (IFPB), cursa Artes Visuais no CEART. Sua produção reúne retratos estilizados e referências à moda, feminilidade, transgeneridade, cultura punk, estética gótica, terror e fantasia. Em suas pinturas e desenhos, explora elementos do lowbrow, também conhecido como surrealismo pop, movimento pelo qual manifesta especial interesse. Participa da residência artística (r)existir, vinculada à Universidade Federal da Paraíba (UFPB), e integrou o programa de residência online conduzido por Efe Godoy no Centro Cultural Veras, em 2026.
Juliano Bentes é artista, pesquisador, professor e produtor cultural sediado em Belém do Pará. Doutor em Artes pela Universidade Federal do Pará (UFPA), sua trajetória articula performance, visualidade, cenografia, docência, escrita e produção cultural, com pesquisas relacionadas a corpo, território, memória, gênero e dissidência na Amazônia. Desde 2016, realiza performances sob a identidade Skyyssime, em diálogo com a cena Drag Themônia e seus processos de experimentação estética e política. Sua atuação está ligada ao Movimento Cultural das Themônias, no qual desenvolve práticas artísticas e investigações sobre identidade, representação e experiências dissidentes.
Ryo Sylva é artista visual e fotógrafo documental autodidata. Sua prática multidisciplinar investiga memória, corpo e dissidências de gênero, com pesquisas relacionadas à transcestralidade e às heranças presentes em suas próprias experiências. Desenvolve trabalhos que aproximam fotografia, costura e bordado de processos de registro e preservação de memórias individuais e coletivas. É autor de nascer ryo (2025), e seu trabalho já integrou exposições coletivas no Brasil. Atualmente, desenvolve um documentário sobre vivências transcentradas e pesquisa os rios como parte de uma investigação sobre memória e heranças vivas.
A programação de artes visuais do Veras, composta por residências, ateliês e exposições, conta com o apoio do Prêmio Funarte de Apoio a Ações Continuadas – Artes Visuais, no biênio 2026–2027.