



Antes de toda cidade, há uma paisagem viva anterior. Mesmo quando coberta por concreto e linhas retas, ela continua operando em camadas semi-invisíveis: solos, águas, raízes, fungos, restos, fluxos, alianças e insistências. Cidades-Floresta parte dessa percepção: habitar não é ocupar um espaço vazio, mas entrar em relação com aquilo que já estava em curso antes de nós.
A instalação propõe um ambiente têxtil formado por corpos suspensos e pousados, organismos macios, dobras, relevos e superfícies que se espalham pela Cantina Ananda, do Centro Cultural Veras, como uma paisagem em transformação.
Um dos aspectos centrais do trabalho foi a participação de mulheres do coletivo Costureiras do Frei: Maria Aparecida Laurindo, Marilde Ros, Odimar Barros, Olívia Vieira, Rosangela Ramos, Simone Borman e Valdelice Oliveira que, sob supervisão técnica de Bianca Pacheco da Silva, atuaram como assistentes de artista no desenvolvimento dessa instalação.
A obra foi construída a partir de sobras e fragmentos de produções anteriores, tanto do coletivo quanto dos artistas. Materiais que poderiam ter sido descartados retornam como presença, memória e possibilidade. Nada aqui começa do zero. Tudo passa por corte, costura, recomposição, acúmulo e desvio. Essa lógica não aparece apenas na forma da obra. Ela estrutura seu modo de existir: como matéria, processo, relação e pensamento. Entre mãos, tecidos, conversas e decisões compartilhadas, a instalação foi sendo construída como uma ecologia de gestos.
Não se trata de representar uma floresta, mas de aprender com ela: criar por associação, crescer por contato, sustentar diferenças e inventar continuidade onde parecia haver sobra. Cidades-Floresta afirma que outros modos de existência não pertencem apenas ao futuro: eles já aparecem nos coletivos, nos saberes manuais, nos resíduos que se recusam a terminar e nas formas de vida que insistem em criar as alianças possíveis entre territórios e afetos.
Saiba mais sobre o duo Otropicalista:
Marcelo Fialho e Marco D.Julio desenvolvem uma pesquisa poética que assume a arte como campo total, onde não há hierarquias entre objeto, espaço, gesto ou relação. Por meio de caminhadas, cartografias sensíveis e da criação de objetos, instalações, esculturas e dispositivos têxteis, transformam experiências urbanas e naturais em proposições estéticas.
A programação de artes visuais do Veras, composta por residências, ateliês e exposições, conta com o apoio do Prêmio Funarte de Apoio a Ações Continuadas – Artes Visuais, no biênio 2026–2027.