EXPOSIÇÃO INDIVIDUAL

KHETLLEN COSTA: TRAMANDO AFETOS

Tramando Afetos é o resultado da longa pesquisa conduzida por Khetllen Costa em busca de retratos de mulheres africanas e indígenas mantidos em acervos fotográficos, com os quais a artista desenvolve obras que entrelaçam narrativas autobiográficas junto aos escassos registros que encontra em arquivos públicos. Nesse processo, a fotografia encontra processos manuais, como o desenho, o bordado, a gravura e a pintura, de modo sensível e reparador, reativando memórias silenciadas de gênero e identidade. A mostra tem curadoria de Sandra Favero e seguirá aberta para visitação até 11/04/2026. 

Parte das obras da exposição Tramando Afetos contou com a assistência do Coletivo Costureiras do Frei: Bianca Pacheco, Letícia Bernardinho, Marilde Ros, Maria Goreti de Souza Simch, Maria Fernanda Rosa, Maria Aparecida Laurindo, Marilei Aparecida Tomé, Olivia Jorgina Vieira, Valdelice Oliveira, Roseli Pereira, Selma Modesto Nunes.

Saiba mais sobre a artista:

Khetllen Costa (Manaus, 1991) 

Em sua pesquisa, desenvolve trabalhos tendo a fotografia digital e os processos de linguagens híbridas como ponto de partida. Suas obras possuem elementos do desenho, da pintura, do bordado e do vídeo. Tendo como principais temas de investigação questões de gênero, raça e identidade, atualmente dedica-se à pesquisa de retratos de mulheres africanas e indígenas em acervos fotográficos, com os quais desenvolve obras que entrelaçam narrativas autobiográficas junto aos escassos registros que encontra em arquivos públicos. Ao intervir nesses materiais, a artista transforma o tramar em gesto de cuidado crítico, articulando memória e presença sem dissociar afeto e política.

Tramando Afetos nos convida a prestar atenção às invisibilidades presentes naquilo que culturalmente nos foi ensinado. Denuncia o olhar apagado dirigido a todos aqueles que não são brancos. A produção artística, marcada pela delicadeza e pela firmeza de intenções, revela-se contundente ao expor essas ausências e transformá-las em presenças. Seu intuito é exaltar o protagonismo de mulheres de origem africana e indígena, historicamente silenciadas e invisibilizadas.

Khetllen Costa toma como base de sua pesquisa artística fotografias das mulheres de sua família e de si mesma quando criança. Utiliza imagens de mulheres afrodescendentes registradas por Silvino Santos, presentes no acervo do MIS do Amazonas, e fotografias do início do século XX, da Casa da Memória de Florianópolis e do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina, destacando mulheres que aparecem em registros do espaço urbano sem qualquer protagonismo. Nessas mesmas fontes, identifica crianças negras, chamadas de bugres, que recebiam o apadrinhamento de políticos renomados em fotografias de escolas católicas. Além disso, com acesso

aos estudos de José Bento da Rosa da Silva, incorpora uma lista de nomes atribuídos a mulheres africanas recém-chegadas para serem escravizadas em Santa Catarina, datados do século XVIII. Também obteve junto ao Arquivo Histórico do Município de Florianópolis outra lista de tributos em torno da venda de pessoas escravizadas do ano de 1810, que contém os nomes de mulheres e homens cativos.

Sobre o encontro que a artista teve com arquivos históricos em Manaus, onde estão suas raízes afro-indígenas, Khetllen escreveu em sua tese: “sair da minha terra natal para morar em outro lugar com tantas diferenças culturais, geográficas e étnico-raciais, desestabilizou minhas estruturas e me levou a compreender meu estar no mundo. Ademais, isso aumentou em mim o desejo de pertencimento, de filiação a um lugar, mas percebi que minha existência é marcada por confluências que me constituem”. Compreendendo seu posicionamento a partir da fragilidade em que se encontrava, a artista vai tomando consciência de sua identidade e da necessidade de se
fortalecer diante das diferenças. Nesse percurso, evidencia-se a trama tecida pelos elementos da pesquisa, que conferem sentido afetivo e amoroso aos trabalhos, à medida que se constituem e revelam linhas de vida que se cruzam, mesmo em tempos distintos.

Ao ampliar sua investigação com os arquivos encontrados em Florianópolis, a artista instaura um novo movimento que gera dinâmicas inéditas, tramadas com fios de afetos e memórias que fluem e se reorganizam conforme os gestos presentes nas gravuras da série Vislumbradas. A utilização de ervas medicinais em Existências Líquidas, e ervas daninhas nas monotipias de Recém chegadas, ato 2 também revelam esse processo.

Em Alumiadas, fotografias de mulheres indígenas de distintos lugares da Amazônia em situações do cotidiano recebem interferências da artista. Por meio de pontos de luz gerados com pequenos furos, a obra evidencia o que pode estar além daquelas imagens, instaurando novas camadas de sentido.

O espaço aberto ao longo do processo levou a artista a um novo modo de proceder, requisitando auxílio para a montagem e finalização de duas obras presentes na exposição: Tramando afetos: laços afro-indígenas e Recém-Chegadas, ato 2. Os trabalhos contaram com a experiência em costura e bordado do coletivo Costureiras do Frei. Merece destaque o convívio com as mulheres costureiras e bordadeiras que executaram as duas obras mencionadas, tramando um tecido afetivo não apenas com a artista, mas também com a menina que um dia vestiu os três vestidos que compõem Tramando afetos: laços afro-indígenas. Ao bordarem cada nome da lista de mulheres presentificadas em Recém-chegadas, ato 2, instauram um encontro de mulheres que, entre fios, tecem a trama do tecido afetivo e social contemporâneo. Ao mesmo tempo, esse processo resgata memórias pessoais e coletivas, conferindo um novo movimento de afeto e visibilidade às artesãs, cujo trabalho minucioso e delicado permanece, na maioria das vezes, invisível para grande parte das pessoas. Na tessitura de suas obras, Khetllen Costa aciona os movimentos das linhas da vida, fazendo-as se encontrar, crescer e se desdobrar em novos modos de afirmar a arte para além da linguagem poética adotada, como um manifesto afetivo, político e resistente.

Sandra Favero

O Ciclo de Exposições é realizado com patrocínio do Município de Florianópolis, por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura nº 3659/91.

Realização: Centro Cultural Veras

Apoio Master: SmartFit, Junckes e Verbena Participações

Apoio Cultural: Hospital Baía Sul, NDTV e Record Oficial

Patrocínio: Fundação Franklin Cascaes e Prefeitura de Florianópolis