EXPOSIÇÃO INDIVIDUAL

Soninha Vill: Posta restante

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O conjunto de imagens de Posta Restante foi reunido por mais de um ano, período em que Soninha Vill manteve convivência com crianças, jovens e adultos da comunidade Frei Damião. O título toma emprestado o termo do vocabulário postal que designa os serviços de guarda temporária de correspondências à espera de seu destinatário. Sua escolha remete a um dos dias de trabalho com o grupo que a artista acompanhou por meses. A jovem Ana Beatriz foi quem comentou com entusiasmo haver recebido pela primeira vez uma correspondência em sua própria casa, depois que os Códigos de Endereçamento Postal (CEPs) foram atribuídos à região. 

As cenas em ruas, casas, escolas, estabelecimentos comerciais, cooperativas e organizações sociais procuram representar um território que raramente figura como remetente ou destinatário das narrativas oficiais. Ao justapor diferentes momentos, as imagens produzidas ao longo dos meses procuram recompor, em menor escala, a experiência compartilhada por aqueles que habitam o território. Desse modo, a escolha de Soninha por evidenciar os vínculos afetivos junto às paisagens locais oferece os contornos para um retrato da comunidade. 

Na trama de histórias evocadas, reaparecem os céus azulados, quase sempre povoados por pipas dançantes; a sombra de um menino no muro que compõe o retrato das irmãs sorridentes; a árvore que desponta na fronteira entre os paredões que separam as residências do setor industrial; o trio de mulheres sentadas diante da fachada, onde se lê Zé da Manga; a poesia de um roseiral e a permanência imponente da Pedra Branca, avistada ao fundo.

São as relações humanas, então, que se sobressaem como o meio para fundar o pertencimento e a imaginação de uma comunidade cujos vínculos são lembrados através das presenças de Maria Aparecida, D. Preta, Maria Gorete, Emilly, Yuri, Olívia, Ana Beatriz, Admilson, Siglia, Calebe, Olívia, Baleia, Ester e Ygor. 

Aos destinatários da mostra, Posta Restante procura aguçar a visão de um território pelo olhar de quem nele percebe a estagnação programada para uma parcela da população, como se ali houvesse um tempo retido que interrompe a fluidez de vidas largadas à própria sorte. Assim, cada retrato procura reafirmar que as singularidades pertencentes às histórias de uma vida nunca cabem na categoria social que lhe foi atribuída por desigualdades predominantes. De igual modo, cada paisagem revela as sutilezas de um espaço que deixa de existir apenas como margem. 

Josué Mattos e Rainara Sofia

Agradecimentos: Associação Laura dos Santos, Centro de Assistência e Desenvolvimento Integral, Projeto Dorcas e Multicor Atelier de Impressão

A programação de artes visuais do Veras, composta por residências, ateliês e exposições, conta com o apoio do Prêmio Funarte de Apoio a Ações Continuadas – Artes Visuais, no biênio 2026–2027.

Saiba mais sobre a artista:

Soninha Vill é fotógrafa-artista com mais de 17 anos de atuação na área, desenvolve seu trabalho e pesquisa artística nos campos da fotografia e do vídeo. Após duas décadas dedicadas à educação, migrou para a arte e a fotografia, movida pelo potencial expressivo dessas linguagens.

Nos últimos anos participou de várias mostras e exposições, individuais e coletivas. Destaques, 2023, para a Exposição Coletiva Comunidade de Ressonâncias, no Centro Cultural Veras, Fpolis. Exposição Noite, paisagens imaginárias, da Coletiva 7Mulheres no Espaço Cultural BRDE – Palacete dos Leões, Curitiba. Teve o trabalho Cidadão de Bem, 2018-2021, projetado no Festival de Arles, França. Participou da mostra Prelúdio da Noite, no Laboratório NEFA, 2019. Esta exposição multimídia foi apresentada no Festival Instantes, em Avintes, Portugal, 2019 e no 9º Festival Foto em Pauta, Tiradentes, 2019.

A programação de artes visuais do Veras, composta por residências, ateliês e exposições, conta com o apoio do Prêmio Funarte de Apoio a Ações Continuadas – Artes Visuais, no biênio 2026–2027.